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PERFEIÇÃO
Havia uma menininha chamada Ângela que sempre fazia tudo direitinho. Era mais bem educada do que qualquer um, sabia guardar suas roupas e nunca se esquecia de dar comida às galinhas. E não era só isso. Seus cabelos estavam sempre penteados e ela nunca roía as unhas. Havia muitas pessoas – todas elas de comportamento apenas sofrível – que não gostavam dela por causa disso. Mas Ângela pouco se importava. Simplesmente continuava sendo perfeita e deixava que as coisas seguissem seu curso. Quando o Diabo ouviu falar de Ângela, ficou revoltado. “Não que eu costume me preocupar com criança”, refletiu “mas essa é demais! Imagine como vai ser quando crescer – uma pessoa cujo único defeito é não ter nenhum!” E só de pensar naquilo ele ficava furioso. Então escreveu uma lista de coisas que poderiam irritar Ângela e até, se tudo corresse bem, fazê-la perder a paciência. “E desde que perca a paciência algumas vezes – disse o Diabo – ela nunca mais será perfeita. Contudo, isso se revelou mais difícil do que o Diabo imaginava. Ele a atacou com catapora, com urtigas, depois com picadas de mosquitos, mas ela nunca se coçava e parecia nem sentir coceira. Nem uma vaca pisando em sua boneca adiantou: Ângela não derramou uma lágrima sequer, pelo contrário, perdoou a vaca na mesma hora, em público, dizendo que aquilo acontecia. Depois o Diabo determinou que, por semanas a fio, seu chocolate ficasse quente demais e seus flocos de milho frios demais, mas nada disso a irritou. Na verdade, parecia que, quanto piores as coisas, mais satisfeita ficava Ângela, pois isso lhe dava a oportunidade de mostrar quão perfeita era. Passaram-se os anos. O Diabo tinha experimentado todas as ideias de sua lista, exceto uma, e Ângela continuava sendo mais educada do que qualquer outra pessoa. “De qualquer forma” – disse o Diabo – “minha última ideia não pode falhar. Disso tenho certeza! ”E ele esperou pacientemente o momento oportuno. Chegado esse momento, a ideia do Diabo funcionou às mil maravilhas! Para falar a verdade, foi perfeita. Logo que a pôs em prática, Ângela passou a perder a paciência pelo menos uma vez por dia, às vezes até mais, e depois de certo tempo tantas vezes que nunca mais voltou a ser perfeita. Como o Diabo conseguiu isso? Simples. Ele apenas providenciou a Ângela um marido perfeito, uma casa perfeita, e então...lhe enviou um filho de comportamento apenas sofrível.
(Do livro O DIABO SE DIVERTE de Natalie Babbit)

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