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Lei 10.216: nem errada nem idiota...

Surpreendi-me, e muito, com a ingenuidade do senhor Ferreira Gullar, jornalista, escritor, poeta, e pai de duas pessoas portadoras de sofrimento psíquico, ao afirmar, aparentemente sem nenhuma sombra de dúvida, que no Brasil não temos mais manicômios, pior ainda, que já não os tínhamos à época em que se iniciou o processo de reforma psiquiátrica. Até me pergunto se o Brasil em que ele vive e ao qual se refere é o mesmo aonde eu vivo, convivo, assisto e trabalho na área de saúde mental. Experiência curtíssima quanto a trabalho, é bem verdade, mas longa a perder de vista quanto a vivência nesse campo. O seu tormento como pai é a única coisa que justifica a opinião emitida em artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo, no dia 12/04/2009, e percebo, pelo mesmo artigo, o seu total desconhecimento da realidade do hospital psiquiátrico. Até me constranjo um pouco ao dizer isso, uma vez que, tendo ele dois filhos com sofrimento mental, espera-se dele conhecer a fundo essa realidade, mas não é o caso. A forma como defende o uso da camisa de força e do encarceramento, ou se refere ao eletrochoque, é no mínimo assustadora. “Com o tempo, porém, descobriu-se um modo de limitar a intensidade do choque elétrico e apenas usá-lo em casos extremos”, diz ele em seu artigo. Santo Deus! Não vou aqui, em nenhum momento, criticar a internação por si só, até porque há os casos sim, em que elas são necessárias, indispensáveis mesmo, e é verdade que há um movimento forte pela humanização desses internamentos, mas daí a transformar os hospitais psiquiátricos em SPAs ou casas de recreação, como ele tenta fazer em seu artigo, é ingênuo de dar pena. E medo. Gostaria muito de dizer que concordo com o senhor sobre ser um cretino aquele deputado que falou que “as famílias dos doentes mentais os internavam para se livrarem deles”, mas o que eu tenho, todos os dias, é a prova de que ele está certo. Não assim, simplesmente. Há todo um contexto de dor e desconhecimento que faz com que essas famílias prefiram ter os seus doentes mentais internados a tê-los junto a si. Porque a família também adoece, isso é fato, o que exige que seja feito com ela todo um trabalho de apoio e envolvimento, a partir da compreensão e aceitação do que se passa. A Lei 10.216 não é errada e nem idiota, meu senhor, e entre todas as suas pretensões - da Lei, não do senhor - está a preocupação em devolver ao portador de sofrimento psíquico o respeito por sua individualidade, mais do que isso, o respeito por sua condição de pessoa. Ainda temos grades nos hospitais, poeta, e não sei o que o faz crer que eles perderam o seu caráter carcerário. Ainda temos políticos, profissionais de saúde e milhares de outras pessoas que pensam igualzinho ao senhor, isso é certeza, e é esse tipo de crença que continua fazendo do doente mental uma vítima do estigma da doença mental, como se ele tivesse escolhido ser dela um portador, e precisasse ser punido, permanecendo prisioneiro de muros reais, como os do hospital psiquiátrico, ou imaginários, como os de ideias como as que o senhor defende.

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